Numa conversa em família, foi-me relatado um elemento particularmente "cancerígeno" na conversa do tal "pensador livre" condenado por ameaças, extorsão, agressão e pelo envolvimento no assassinato racista de Alcindo Monteiro. A certa altura, o gajo diz que nunca viu nenhum negro que tivesse agredido ou morto um branco que fosse condenado por actos racistas. Isto significa, em primeiro lugar, que, longe de estar “arrependido”, o gajo considera-se “injustiçado”. Mas o lado “cancerígeno” do raciocínio em questão é que é um raciocínio que “pega”, porque até parece fazer sentido (talvez por levar aos seus limites o mito republicano da perfeita igualdade de todos perante a lei e o Estado). Só que faria sentido apenas num contexto muito mas muito específico, e muito abstracto, que, quem tende a concordar e até a propagar este tipo de argumentos, esquece, quando não omite deliberadamente. É que faria sentido apenas se as sociedades humanas tivessem começado a existir ontem e nunca tivesse acontecido nada antes (não teria então havido, por exemplo, a violenta ocupação de territórios alheios por populações europeias; não teria havido a dizimação de povos indígenas e o deslocamento forçado de milhões de indivíduos escravizados; não teria havido eminentes “cientistas” a defender que a superioridade racial dos brancos justifica o seu privilégio e o seu domínio sobre os outros; não teria havido pessoal que, também na base das mencionadas teorias raciais, considerou que melhor ainda seria que os não brancos simplesmente não existissem e fez muito para que isso acontecesse; e não existiriam milhares de grupos organizados a perseguir os mesmos objectivos em muitas cidades europeias).
Além disso, as tais sociedades humanas que teriam surgido milagrosamente já todas feitas ontem deveriam ser compostas por indivíduos perfeitamente iguais sobre todos os aspectos, equivalentes por possibilidades económicas, por tipo de área de residência e de habitação, por exemplo, mas também meios de relacionamento social, papeis na gestão doméstica, oportunidades de expressão sexual, literacia, formação, nível de actividade laboral exercida e retribuição. Apenas nestas condições, se a única distinção que permanecesse fosse a cor da pele, aí sim o argumento da reciprocidade – ou seja, porque que é que deveria haver o crime de racismo de brancos contra negros e não de negros contra brancos – aí sim, que poderia fazer sentido. Não estando, com toda evidência, estas condições realizadas, “opiniões polémicas” como esta devem ser refutadas e rejeitadas como o perigoso lixo ideológico que são.