— CRÓNICA
A política como “representação”

Ao que tudo indica, nos dias em que a região centro foi assolada por violentas tempestades, os canais oficiais do partido Chega terão difundido um vídeo nas redes sociais que mostra o seu líder a carregar garrafões de água na mala de um carro debaixo de chuva, tendo aumentado a intensidade da chuva por meios digitais. Sabemos muito bem que a propaganda é a alma do negócio, mas uma manipulação tão grosseira merece alguma atenção. Na última década, a comunicação política tem-nos oferecido discursos e atitudes que teriam sido impensáveis até há não muito tempo atrás, mas que hoje na verdade já não nos surpreendem assim tanto. Pensemos, a nível internacional, no grotesco fluxo semi-improvisado de Donald Trump, um misto de auto-celebração, insultos e mentiras, que o próprio já transformou numa figura de estilo, batizando-a de “the weave”. Ou, aqui mais perto, no comportamento vergonhoso do deputado do Chega Filipe Melo que, durante os trabalhos da Assembleia da República, dirigiu palavras e gestos de cariz racista e machista a duas colegas deputadas. Comportamento que, porém, não parece ter suscitado qualquer vergonha no seu autor, que ainda não apresentou um pedido de desculpas, apesar de ter sido instado nesse sentido no âmbito de um inquérito parlamentar. A falta de vergonha não parece aqui apenas um defeito pessoal, uma falta de estilo ou de educação, mas um dos elementos centrais de uma certa forma de ação política. Lembremos ainda um outro momento também muito significativo, quando o então candidato à Presidência da República André Ventura disse abertamente e sem hesitar que, caso viesse a ser eleito, não seria o presidente de todos os portugueses. Trata-se de uma declaração surpreendente, se considerarmos que tradicionalmente é quase que um lugar-comum da retórica dos candidatos à Presidência dizer que, uma vez eleitos, irão representar todos os cidadãos, inclusive os que não votaram neles. Como fez, de resto, em mais de uma ocasião, antes e depois da vitória, António José Seguro.
