— CRÓNICA
Níobe em Gaza
A editora Penguin reeditou no final do ano passado as Metamorfoses de Ovídio, livro que não seria exagero descrever como prodigioso e que há anos estava fora de circulação. Entre as muitas histórias que lá encontramos, conta-se a de Níobe, rainha de Tebas e mãe de catorze filhos, sete rapazes e sete raparigas. Certo dia, ao ver o povo tebano todo atarefado com os preparativos para a celebração da deusa Latona, mãe dos gémeos Apolo e Diana e protetora da maternidade e das crianças, Níobe não consegue conter a sua irritação. Mas porque havemos de adorar uma deusa que só teve dois filhos, grita, quando eu tenho catorze? Eu sou bem mais afortunada que Latona, podem até tirar-me alguns deles e ainda assim terei mais do que ela. Latona ouve estas palavras e, revoltada com as soberbas injúrias da mortal, chama os filhos e pede que lhe tragam vingança. Apolo e Diana respondem de imediato. Primeiro, Apolo dirige-se aos sete filhos varões, que se encontravam a fazer exercícios, e mata-os um a um com as suas setas. Níobe chora a morte dos filhos mas, como se não conseguisse conter o desafio, insiste: ainda lhe restam as sete filhas, diz ela. Mas eis que as setas certeiras de Diana atingem as raparigas também, uma após a outra até restar apenas uma, que busca proteção nos braços da mãe. Níobe abraça-a, faz do seu corpo escudo, suplicando aos deuses que lhe poupem ao menos esta última filha. Em vão pois, com uma última seta, Diana completa o massacre. Rodeada agora pelos corpos dos catorze filhos, Níobe emudece de dor. O vento já não lhe move os cabelos, diz Ovídio, a face perde a cor, os olhos fixam-se sem piscar. Com o rosto ainda lavado em lágrimas, Níobe torna-se pedra. Um vendaval arrasta-a para a sua terra natal, onde dizem que ainda hoje é possível ver, no cume de uma montanha, uma pedra de onde as suas lágrimas brotam eternamente. “Porém ainda chora”, escreve Ovídio.
No dia 23 de março, pela manhã, Alaa Al-Najjar foi trabalhar para o Hospital Nasser, em Khan Younis, uma cidade no sul da faixa de Gaza. Pediatra, é conhecida pela dedicação com que, apesar da falta de condições, procura prestar cuidados às crianças vítimas da ‘operação militar’ israelita. Em casa ficaram o marido, também médico no mesmo hospital, e os seus dez filhos, o mais velho com dez anos e o mais novo com seis meses. Nesse dia, bombas do exército de Israel atingiram a casa, matando o marido e nove dos dez filhos. Apenas um, Adam, sobreviveu, ficando gravemente ferido. Não sabemos o que Alaa poderá ter feito para merecer tal castigo, que divindades terá ofendido. Também não encontrei notícias sobre o que será feito de Alaa. Não sei se o Hospital Nasser de Khan Younis ainda está de pé, se ela ainda trabalha lá, se continua a proteger o último filho com o corpo de cada vez que ouve o estrondo das bombas. Ou se também hoje em Gaza há uma pedra que chora para sempre.