Davide Scarso
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— CRÓNICA

Elon Musk, a parábola de um “génio”

Elon Musk
A celebração de Elon Musk como "génio visionário" tende a obscurecer as dinâmicas coletivas, as estruturas de poder e os recursos materiais que possibilitaram o seu sucesso. Sem negar o papel de uma certa inteligência, muita ambição e alguma ousadia, o seu verdadeiro talento reside mais na capacidade de compor e mobilizar recursos financeiros, tanto privados como públicos, tirando frequentemente partido de subsídios governamentais e incentivos fiscais para alavancar os projetos das suas empresas high-tech. E nas redes sociais muito se discutiu o facto de parte do capital da família de Elon Musk estar relacionado com atividades de exploração mineira na África do Sul do apartheid, bem como a ideia de que, bem vistas as coisas, Musk não é diretamente responsável por nenhuma "invenção" propriamente dita.

Mas talvez seja interessante alargar o quadro e ver o percurso de Musk como uma verdadeira "parábola" do nosso tempo. Por um lado, Musk encarna de forma emblemática a transformação profunda na própria figura do "génio" contemporâneo. Se antes este papel estava associado ao espaço criativo e científico da "Big Science" ligada ao setor público – refira-se, de Oppenheimer aos aceleradores do CERN – ele tem vindo a deslocar-se progressivamente para o campo do empreendedorismo tecnológico. Musk, um autêntico mito contemporâneo, emerge assim num contexto em que a privatização de setores estratégicos, a expansão do papel do mercado e a centralidade do capital privado na inovação – as receitas neoliberais, em suma – reconfiguraram profundamente as relações entre ciência, tecnologia, capital e poder. Esta nova forma de "génio neoliberal" apresenta-se como uma resposta às crises do presente e uma promessa de salvação que mais ninguém parece poder oferecer: carros elétricos para todos, naves espaciais reutilizáveis e colónias em Marte. Com a Tesla e a SpaceX, Musk não se limita a comercializar produtos, mas vende a promessa de um futuro supostamente sustentável e socialmente pacificado, baseado em soluções tecnológicas privatizadas e numa lógica de mercado intensamente extrativista. Um horizonte de redenção tecnológica porvir, cuja aparente iminência permite ignorar problemas muito mais concretos e prementes, ambientais, sociais e económicos, que, de resto, a ser levados a sério, implicariam reconfigurações políticas radicais.

Esta dinâmica é sustentada por um modelo que eleva o individualismo competitivo ao estatuto de virtude suprema, articulando o carisma individual, a narrativa de superação meritocrática e a capacidade de mobilizar capital e inovação tecnológica como motores exclusivos do progresso. Os protagonistas desse cenário – Musk, Zuckerberg, Bezos, etc. – não são meros líderes empresariais, mas símbolos de uma nova ideologia que sacraliza o mercado e apresenta a iniciativa privada como derradeira solução universal para problemas coletivos. A competição e o sucesso individual são celebrados não apenas como meios para o progresso económico, mas como valores morais em si mesmos. A nomeação de Elon Musk para liderar o recém-criado Departamento de Eficiência Governamental, juntamente com Vivek Ramaswamy, e a escolha de outro empreendedor milionário, Jared Isaacman, como novo diretor da NASA, vem consolidar um momento decisivo – talvez até conclusivo – no processo de convergência entre o poder político e o empreendedorismo tecnológico.

O centro da agência decisória passa assim dos mecanismos de legitimação da democracia representativa tradicional para as dinâmicas do mercado e do poder corporativo, onde decisões cruciais sobre o futuro coletivo são capturadas por interesses privados e pela lógica da acumulação de capital. Enquanto serviços públicos e direitos fundamentais são precarizados e privatizados, qualquer preocupação com o "bem comum" é substituída por uma fé cega nas virtudes do empreendedorismo individual e da competição de todos contra todos.

Por outro lado, foi pelo menos desde a crise de 2008 que as estratégias neoliberais revelaram a sua incapacidade em produzir qualquer resultado para além da concentração de riqueza sem precedentes, do aumento da desigualdade e da expansão da precariedade laboral, enquanto as promessas de eficiência, inovação e prosperidade compartilhada se revelaram como mera retórica ao serviço da acumulação de riqueza. É neste contexto de crescente frustração pela desigualdade e exclusão que a trajetória de Musk se torna ainda mais significativa: a sua gestão da plataforma X (antigo Twitter) ilustra como a promessa tecnológica futurista se funde agora com a mobilização do descontentamento e das ansiedades pelas narrativas autoritárias da nova direita. Sob a sua liderança, o discurso da liberdade de expressão é habilmente reutilizado para alimentar o ressentimento e reforçar um modelo de governança corporativa em que a retórica salvacionista da inovação tecnológica flirta abertamente com a desinformação e o ódio racial.

Os arautos do neoliberalismo, incapazes de oferecer soluções efetivas para o descontentamento gerado pelo aumento da desigualdade, a exclusão dos processos de deliberação e a ansiedade face ao futuro – que eles próprios contribuíram para produzir – mobilizam-no, alimentando pulsões etnonacionalistas e autoritárias. Num curto-circuito diabólico, este "Frankenstein Neoliberal" (como diria Wendy Brown), funde assim a exaltação retórica da liberdade individual com a nostalgia de uma estrutura social “segura”, isto é, claramente hierarquizada do ponto de vista racial e de género.

A trajetória de Elon Musk revela assim muito mais do que talentos e contradições individuais: ela expõe a evolução de um projeto político e económico que, ao sacralizar o mercado e demonizar a ação coletiva, preparou o terreno para a sua própria mutação autoritária. “Génio” empreendedor que promete colonizar Marte com os seus vaivéns espaciais, enquanto promove a colonização de um espaço público já fragilizado com retóricas de ódio, Musk personifica a parábola terminal do neoliberalismo: quando a “liberdade de mercado” se funde definitivamente com a nostalgia de uma ordem autoritária. Reconhecer esta dinâmica implica não apenas apontar às responsabilidades individuais, mas sim compreender que qualquer alternativa real passa necessariamente pela recuperação da capacidade de pensar e construir um projeto de vida em comum.

Publicado aqui: Público (2025-01-05)

5 janeiro 2025 · Público