— NOTA
Acredito ser assim no caso da “menina da Target”. Na verdade, o actor principal é o pai, o pai que primeiro se enerva e protesta mas que depois no fim pede desculpa à “máquina”, porque quem esteve mal foi ele. Foi ele, pai ausente, que não soube reconhecer e conter a exuberante sexualidade da filha adolescente, foi ele, pai arrogante, que, mesmo perante a clara indirecta que a máquina lhe dirigiu, não quis sequer duvidar por um instante das suas capacidades e foi ainda ele, pai inepto, que teve que admitir ter sido derrotado pelo algoritmo da Target que conhecia a filha melhor do que ele. A história, ou melhor, a parábola da menina da Target diz muito sobre o poder dos algoritmos (no sentido, claro, das muitas do conjunto de diferentes instâncias, tanto públicas como privadas, que poderão recorrer a este tipo de instrumentos na sua intervenção) que pode ser pensado precisamente como um poder “paternal”. Um pai decididamente “presente”, “compreensivo” e “cuidador”, que guia e acompanha as nossas acções com vista à sua optimização, que cuida atencioso do nosso bem-estar e corresponde, chegando aliás a antecipa-las, a todas as nossas necessidades. É o governo de um pai poderoso e benévolo, omnipresente e discreto, que nunca deixará de tratar de nós, desde que, naturalmente, não pretendamos abandonar o nosso estatuto de “filhos menores”.