Davide Scarso
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— NOTA

Em Nome do P-AI Não há encontro, conferência ou conversa sobre AI, machine learning ou Big Data em que alguém a certa altura não mencione a história da “menina da Target”. Um dos aspectos mais interessantes é que não parece haver muitas indicações que seja verídica: um tipo contou a história numa apresentação, sem indicar com precisão datas ou localidade, e nunca ninguém ofereceu alguma confirmação concreta. É bem provável que se trate de uma anedota contada para “puxar a brasa à sua sardinha”, como dizem os portugueses. O facto de não ser uma história verdadeira, porém, não retira o seu interesse, muito pelo contrário (ou seja, como dizem os italianos, "se non è vero è ben trovato"). Se muitos de nós difundem um relato, notícia ou imagem sem sentir a necessidade de verificar a sua veracidade deve ser porque tal relato, notícia ou imagem possui um poder peculiar de fascinação. E talvez essa fascinação possa ser explicada como uma boa correspondência às esperanças e desejos, ou às ansiedades e receios, que agitam silenciosamente as nervuras dos nossos pensamentos.

Acredito ser assim no caso da “menina da Target”. Na verdade, o actor principal é o pai, o pai que primeiro se enerva e protesta mas que depois no fim pede desculpa à “máquina”, porque quem esteve mal foi ele. Foi ele, pai ausente, que não soube reconhecer e conter a exuberante sexualidade da filha adolescente, foi ele, pai arrogante, que, mesmo perante a clara indirecta que a máquina lhe dirigiu, não quis sequer duvidar por um instante das suas capacidades e foi ainda ele, pai inepto, que teve que admitir ter sido derrotado pelo algoritmo da Target que conhecia a filha melhor do que ele. A história, ou melhor, a parábola da menina da Target diz muito sobre o poder dos algoritmos (no sentido, claro, das muitas do conjunto de diferentes instâncias, tanto públicas como privadas, que poderão recorrer a este tipo de instrumentos na sua intervenção) que pode ser pensado precisamente como um poder “paternal”. Um pai decididamente “presente”, “compreensivo” e “cuidador”, que guia e acompanha as nossas acções com vista à sua optimização, que cuida atencioso do nosso bem-estar e corresponde, chegando aliás a antecipa-las, a todas as nossas necessidades. É o governo de um pai poderoso e benévolo, omnipresente e discreto, que nunca deixará de tratar de nós, desde que, naturalmente, não pretendamos abandonar o nosso estatuto de “filhos menores”.

19 abril 2019