— NOTA
Há um senhor que escreveu um livro sobre como funciona o fascismo e nesse livro, dizem no Youtube, diz que um dos caracteres essenciais do fascismo é a radicalização da forma “nós/eles” (o facto que um grande filosofo da política de que agora não lembro o nome (Carl Schmitt) acreditasse que fosse mais ou menos essa a forma essencial da vida política, e que esse filósofo fosse nazi, parece suportar esta ideia, mas agora não interessa).
Aqui, ou seja no texto em questão, é como se esse “nós/eles” fosse perseguido até a sua raiz primitiva e visto talvez não tanto como analogia, mas como derivação, extensão ou intensificação do “nós/eles” traçado entre os seres humanos e os outros animais. É útil notar que, mais de que afirmação de uma diferença trata-se aqui da negação de uma proximidade possível, da negação da possibilidade de haver algo em comum entre mim e o animal mortalmente ferido e da supressão da inquietação derivada de me sentir de alguma forma interpelado pelo seu olhar. A proximidade, o apelo (o facto de haver algo em comum) devem ser negados, suprimidos, para que o sofrimento do animal mortalmente ferido não nos afecte, e isso torna-se possível ao pensar que, afinal, “são apenas animais”. É precisamente este pensamento que nos vem soccorrer e que nos permite finalmente de desviar o olhar, aliviados. O que está em causa, no texto (ou nas frases) em questão, não é tanto o que provocou o ferimento mortal do animal ou qual seria o seu objectivo, ou se será em si moralmente admissível ou não provocar uma ferida mortal num animal ou, ainda, em muitos animais de forma sistemática e eventualmente industrial. O que está em causa, no texto, é aquele instante, infinitamente repetido e repetível, em que ocorre esta espécie de exercício espiritual ou estético de contra-empatia ou de dessensibilização, construído em torno da produção de uma fronteira intransponível entre os seres humanos e os outros (que não são humanos; os animais).
E a fronteira constantemente produzida e re-produzida entre os seres humanos e os animais é (salvo raras excepções) intransponível mas não por isso imóvel e, como diz o texto em questão, o mecanismo “são apenas animais” deixa-se levar com muita facilidade a uma transposição a outras fronteiras e outras distinções. Neste sentido, o ferimento mortal de muitos animais de forma sistemática ou industrial teria como característica mais relevante, sempre seguindo a linha de pensamento anterior (que nos parece poder ser legitimamente derivada, de maneira mais ou menos indirecta, do trecho do texto em questão), não tanto a constante produção de muito, imenso, sofrimento animal moralmente inaceitável, mas a reprodução, repetição e consolidação (normalização) de um intenso exercício espiritual (ou estético) colectivo de contra-empatia e dessensibilização. O acto de desviar o olhar dos olhos do animal mortalmente ferido, como também o acto de manter o olhar do animal ferido longe dos nossos olhos, é terrível não por ser imoral, mas por ser anestético (e é por ser anestético que é imoral). O que é mais relevante não será então o facto, apesar de tudo banal, que o que é mais afastado de nós, do nosso mundo ou da nossa vida nos seja estranho, mas que pretendemos (ou precisamos) tornar necessariamente e radicalmente estranho aquilo que queremos afastar de nós e da nossa esfera de sensibilidade, aquilo que não conseguimos ou não queremos integrar e que relegamos aos bairros, por assim dizer, insensíveis e às periferias mais remotas da nossa experiência.