Davide Scarso
← arquivo

— NOTA

Não tem nada a ver comigo II (Desenvolvimento) O texto original, a parte do texto original de que se supõe possa derivar a frase “Auschwitz começa etc. etc.” (e não pretendo falar então do livro todo, que não li, nem do pensamento do Sr. Adorno na sua totalidade, sempre admitindo que alguém possa falar da totalidade do pensamento de outra pessoa), a parte do texto original que está aqui em questão, dizia eu, fala do olhar do animal mortalmente ferido e da possibilidade de desviar os nossos olhos e ignorar aquela dor pensando “é apenas um animal”. Ou seja: ele não é como nós, não é um ser humano, não pertence à nossa comunidade, e não partilha sequer o nosso mesmo mundo, vive noutro lado. No texto (na parte do texto) em questão diz-se que é este mesmo gesto, esta mesma capacidade de desviar o olhar que um animal mortalmente ferido nos dirige que é depois retomado e repetido quando desviamos o olhar de outra pessoa em sofrimento mortal, de outro ser humano mortalmente ferido. E, sempre no texto, é este gesto, esta capacidade de suspender a sensibilidade, de se-dessensibilizar perante o sofrimento mortal de um animal graças ao “são apenas animais” (não são como nós, não são seres humanos, etc.) que abre o caminho aos horrores da perseguição violenta e do massacre colectivo.

Há um senhor que escreveu um livro sobre como funciona o fascismo e nesse livro, dizem no Youtube, diz que um dos caracteres essenciais do fascismo é a radicalização da forma “nós/eles” (o facto que um grande filosofo da política de que agora não lembro o nome (Carl Schmitt) acreditasse que fosse mais ou menos essa a forma essencial da vida política, e que esse filósofo fosse nazi, parece suportar esta ideia, mas agora não interessa).

Aqui, ou seja no texto em questão, é como se esse “nós/eles” fosse perseguido até a sua raiz primitiva e visto talvez não tanto como analogia, mas como derivação, extensão ou intensificação do “nós/eles” traçado entre os seres humanos e os outros animais. É útil notar que, mais de que afirmação de uma diferença trata-se aqui da negação de uma proximidade possível, da negação da possibilidade de haver algo em comum entre mim e o animal mortalmente ferido e da supressão da inquietação derivada de me sentir de alguma forma interpelado pelo seu olhar. A proximidade, o apelo (o facto de haver algo em comum) devem ser negados, suprimidos, para que o sofrimento do animal mortalmente ferido não nos afecte, e isso torna-se possível ao pensar que, afinal, “são apenas animais”. É precisamente este pensamento que nos vem soccorrer e que nos permite finalmente de desviar o olhar, aliviados. O que está em causa, no texto (ou nas frases) em questão, não é tanto o que provocou o ferimento mortal do animal ou qual seria o seu objectivo, ou se será em si moralmente admissível ou não provocar uma ferida mortal num animal ou, ainda, em muitos animais de forma sistemática e eventualmente industrial. O que está em causa, no texto, é aquele instante, infinitamente repetido e repetível, em que ocorre esta espécie de exercício espiritual ou estético de contra-empatia ou de dessensibilização, construído em torno da produção de uma fronteira intransponível entre os seres humanos e os outros (que não são humanos; os animais).

E a fronteira constantemente produzida e re-produzida entre os seres humanos e os animais é (salvo raras excepções) intransponível mas não por isso imóvel e, como diz o texto em questão, o mecanismo “são apenas animais” deixa-se levar com muita facilidade a uma transposição a outras fronteiras e outras distinções. Neste sentido, o ferimento mortal de muitos animais de forma sistemática ou industrial teria como característica mais relevante, sempre seguindo a linha de pensamento anterior (que nos parece poder ser legitimamente derivada, de maneira mais ou menos indirecta, do trecho do texto em questão), não tanto a constante produção de muito, imenso, sofrimento animal moralmente inaceitável, mas a reprodução, repetição e consolidação (normalização) de um intenso exercício espiritual (ou estético) colectivo de contra-empatia e dessensibilização. O acto de desviar o olhar dos olhos do animal mortalmente ferido, como também o acto de manter o olhar do animal ferido longe dos nossos olhos, é terrível não por ser imoral, mas por ser anestético (e é por ser anestético que é imoral). O que é mais relevante não será então o facto, apesar de tudo banal, que o que é mais afastado de nós, do nosso mundo ou da nossa vida nos seja estranho, mas que pretendemos (ou precisamos) tornar necessariamente e radicalmente estranho aquilo que queremos afastar de nós e da nossa esfera de sensibilidade, aquilo que não conseguimos ou não queremos integrar e que relegamos aos bairros, por assim dizer, insensíveis e às periferias mais remotas da nossa experiência.

13 setembro 2019