— NOTA
Não tem nada a ver comigo III (Conclusão)
Podemos perguntar-nos se “o desvio do olhar” seria, no texto em questão, um gesto potencialmente comum a todos os seres humanos ou característico de uma certa época ou ainda de uma certa forma de pensar, como o humanismo, por exemplo, ou a modernidade. De certeza que a industrialização da zootecnia e da produção de carne levou o exercício anestético ou de dessensibilização a uma escala e a uma estruturação nunca antes experienciadas. Prosseguindo, e um pouco mais para o lado, o facto de um indivíduo olhar nos olhos o animal que quer trespassar com uma flecha enquanto procura ludibria-lo tratando-o por genro (indivíduo aqui bastante iconográfico mas que corresponde de forma grosseira a certas descrições etnográficas) poderá não revelar grandes diferenças quando olhado de um ponto de vista moral mas constitui sem dúvida uma profunda diferença de um ponto de vista, digamos, estético e político. Lembrei-me de uma frase atribuída a Tom Waits. Diz que numa entrevista perguntaram-lhe porque é que fala sempre de pobres, falhados e marginais, “Tem uma consciência social?”. “Não”, respondeu, “é para onde vão os meus olhos”.
13 setembro 2019