— NOTA
Não tem nada a ver comigo IV (Post scriptum)
Há ainda que sublinhar que a fronteira do “são apenas animais” (e o sucessivo desvio do olhar) não é assim tão linear, como de resto as fronteiras raramente são, porque atravessa tanto a periferia da esfera humana como alguns postos avançados do mundo animal (certos símios, por exemplo, mas sobretudo os animais de estimação). Eu sou de uma terra em que é suposto haver a tradição de comer gatos, por exemplo. Eu nunca comi um gato, nem vi comer, mas o meu avô dizia que sim, era verdade, antigamente os gatos comiam-se (mas sempre achei que era para assustar os mais pequenos). E há ainda, aqui em Portugal também, aquilo das tabernas mostrarem as cabeças dos coelhos em cima do balcão para que os clientes não ficassem inquietos. Um dia num daqueles programas da televisão pública em que há pessoas a cozinhar comida, um tipo que acho que era um cozinheiro conhecido e muito popular, já com alguma idade e sempre com muito bom humor, teve a ideia de mencionar esta tradição de comer gatos e quis lembrar a relativa receita. Como houve muitas pessoas que protestaram, porque a ideia de comer um gato lhes era insuportável, esse programa da televisão pública em que se cozinhavam diariamente pedaços de vaca, de porco, de coelho e, mais raramente, de cavalo, suspendeu a participação do cozinheiro por vários meses, como uma espécie de punição, suponho.
14 setembro 2019