— NOTA
[Nota: ‘untore’ é o termo em uso nos séculos XVI e XVII para designar alguém suspeito de espalhar intencionalmente a peste. Traduzido literalmente é untador, sendo que um dos métodos principais da alegada difusão implicava o besuntar locais de passagem, como as portas, com certas misturas oleosas que induziriam a doença.]
« De facto, o contágio das infecções tem sido um dos instrumentos de conquista mais importantes na história da humanidade, uma arma vencedora mesmo do ponto de vista espiritual. As epidemias concentram todos os dilemas da filosofia, a partir da relação entre ciência e poder, ciência e religião, e entre dor, medo e fé. Por exemplo, deve-se às missões dos jesuítas o contágio das tribos do interior da Amazónia em 1588: em 100.000 indígenas 44.000 morreram e os sobreviventes converteram-se ao Deus que resistia à varíola. E a coragem dos conquistadores de Cortés não deve certamente ser posta em dúvida, mas o gesto decisivo contra os Astecas foi, em 1520, o envio de um escravo (um untador) doente de varíola. Os índios americanos foram exterminados pela sífilis, os franceses foram expulsos do Haiti pela febre amarela e os britânicos usaram a varíola contra os americanos até que o general Washington decidiu infectar as suas tropas, transformando os untadores em vacinadores.
O preconceito pelo qual o contágio é sempre intencional afunda na verdade da história. Durante a cólera que devastou a Itália do século XIX, a raiva popular acusou os Bourbon que, por seu lado, suspeitavam dos franceses, assim como agora o Ocidente suspeita que a China esteja realmente a preparar a guerra biológica no segredo de seus laboratórios. [No seu romance Os Noivos (I Promessi Sposi), o escritor Alessandro] Manzoni contou de maneira magnifica os untadores como inocentes perseguidos, torturados e mortos. Mas no “dá-lhe ao untador” não há apenas a neurose plebeia do bode expiatório. » Excerto de um artigo de Francesco Merlo, publicado a 27/01 ne La Repubblica:
9 abril 2020