Davide Scarso
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— NOTA

Deve ser maluco, apanhado da bola. Quem é que no seu perfeito juízo ia dar quatro tiros numa pessoa em pleno dia, com dezenas de pessoas a ver, apenas por causa de um desentendimento. Vês o gajo, com a cadela irritante, vás para casa, pegas na arma, voltas e pimba, quatro tiros. Sim, gritou preto isto preto aquilo, volta para a tua terra, mas ele estava sempre a meter-se com todos, sempre com esta conversa, deve ser é maluco. Alguma coisa lá no cérebro dele que não bate bem, os neurónios que não se dão, falta de algum neurotransmissor, quem sabe falta de ocitocina, sim, a ocitocina. Enfim, descompensado.

Algum problema lá na infância dele, pais ausentes, e a mãe, sempre as mães. Devia era ter sido medicada, a loucura dele. Não era racista, era mas é louco e devia ter sido internado, isolado. Mas depois parece que a loucura dele chama-se Ultramar e Guerra Colonial, uma guerra que para ele – como para muitas outras pessoas e de muitas maneiras – nunca tinha acabado, tanto que ainda conservava as armas, que nunca se sabe. É uma loucura, sim, mas afinal é uma loucura histórica. Não é uma doença do cérebro ou da alma de um indivíduo, dentro da sua cabeça e do seu coração, é uma doença do cérebro e da alma de milhares, milhões de pessoas, de povos inteiros.

Não pode ser isolada. E se esse racismo assassino não vem da história de um homem, do cérebro de um indivíduo, mas da história e dos cerebros de milhares e milhões de pessoas, e atravessa séculos, não apenas décadas, que doença é essa? Como é que se trata uma loucura histórica?

30 julho 2020