Davide Scarso
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— NOTA

É que é bastante impressionante pensar nas muitas vidas da Torre Bela ou, dito noutras palavras, pensar em quantas diferentes cadeias de criação de valor e quantas diferentes redes tecno-políticas percorreram, ou tentaram percorrer, aquela que a Wikipédia diz ser a maior área de terra em Portugal que seja circundada por um muro. Aconteceu também em muito outros sítios, claro, mas aqui parece ser mais intenso, ou talvez mais legível. Nasceu como latifúndio para gado, vinhas, olivais e trigo. Um dia vem a ocupação, depois a expropriação, a criação da Cooperativa Agrícola e, depois desta, a gestão pública. E então a reprivatização, com a restituição aos antigos proprietários, que procuram rentabilizar o terreno plantando eucaliptos para a indústria de papel e restaurando os edifícios pensando no turismo e nos eventos, obviamente exclusivos (como não podia deixar de ser, na maior área de terra em Portugal que seja circundada por um muro). Mas também vinhas para produção vinícola de elevada qualidade, actividade que é hoje a máxima expressão de uma possível valorização das terras privadas e, entretanto, repovoam-se os terrenos com veados e javalis para poder oferecer uma experiência inesquecível aos mais nobres caçadores da península.

E, enfim, novos processos de acumulação transformam mais uma vez estes terrenos. Os veados e javalis, antes preciosas espécies cinegéticas, parece que tiveram uma rescisão de contrato nada amigável. Cortam-se os eucaliptos, que hoje não gozam lá de muito boa imagem e preparam-se as terras para uma nova plantação, aliás, uma nova implantação. Diz a Wikipédia que vai ser um dos maiores projectos fotovoltáicos do país, e parece que continuará a estar circundado por um muro.

23 dezembro 2020