— EXCERTO
Depois de percorrer a divisão com um lenço a cobrir o nariz, tão penetrante era o cheiro, senti-me aliviado por chegar à porta e estar novamente no jardim florido que ficava junto ao laboratório. Acabara de ter mesmo em frente dos olhos a essência de todas as doenças que devastam a humanidade. Para meu grande mal, pensei que poderia ter-me deparado com algum micróbio que tivesse escapado da sua prisão. Quando estávamos a ir embora, vi dois cães em pleno ataque de raiva, uivando queixosamente. Um dos galos inoculados com o vírus da cólera gritava como uma coruja, uma ovelha que um assistente submetia a uma experiência balia ruidosamente, para gáudio de um macaco que se balançava numa barra da jaula e que esperava que a febre-amarela, com a qual fora inoculado na tarde anterior, o tornasse mais reservado relativamente aos seus companheiros de laboratório. Era uma cena impressionante que teria feito Hoffmann revirar-se no túmulo.
De qualquer forma, se os animais pudessem partilhar o que pensam, como gostaria de compreender a sua linguagem. Que entrevista fascinante não faria aos hóspedes do Sr. Pasteur! » [Entrevista a Louis Pasteur publicada por D'Alberty no livro "M. Pasteur & la rage", de 1882 (reproduzida em tradução portuguesa no primeiro volume daquelas "Grandes Entrevistas da História" que saíram no Expresso há uns anos e que encontrei meio perdido na prateleira em casa de familiares no verão passado)].