— NOTA
Depois há os olhares de muda reciprocidade dos cães na rua. De alguns entre eles pelo menos. Os gatos, esses, já não saberia dizer. De qualquer forma, apesar de poder haver limites como que universais na duração de um olhar direto entre seres humanos, parece-me fora de discussão que há variações locais importantes. Quando volto à Itália, como aconteceu ainda recentemente, eu, expatriado que passo os meus dias a lamentar a expedita frieza dos contactos ocasionais nas ruas de Lisboa, ao cruzar os olhares diretos – e para mim, agora, algo demorados – da senhora a sair do supermercado ou do jovem sentado na esplanada, sinto algum desconforto. O que é que quererá dizer, pergunto-me, aquele olhar que parece ter-se demorado nos meus olhos um pouco mais do que, por alguma regularidade inscrita em lugar nenhum mas não por isso menos premente, seria de esperar?
Será que o veludo das minhas calças já está gasto além do que seria de considerar aceitável? Será que lhe lembro alguém conhecido? Será que o contínuo remexer dos meus pensamentos – e dos meus desejos – dá ao meu rosto um certo ar de tresloucado?
11 fevereiro 2023