Davide Scarso
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— NOTA

Pontos de gratidão, disse o miúdo sentado num dos cadeirões cinzento-azul do Hospital de Dia. Devia ter dez, onze anos no máximo, e uns minutos antes tinha perguntado à enfermeira como se faziam as plaquetas da transfusão que ia receber. Sem desviar os olhos das saquetas e tubinhos que ia organizando com movimentos rápidos e medidos, verificando cada passagem uma e outra vez, a enfermeira explicara que não, as plaquetas não se podiam fazer, são retiradas do sangue que as pessoas vêm dar, os dadores. Há umas máquinas, dissera, que pegam no sangue que os dadores deram e separam certas partes, como o plasma ou as plaquetas, que depois são dados a quem mais precisa de uma coisa ou de outra. Não com dinheiro, continuou o miúdo sem se dirigir a ninguém em particular, as pessoas deveriam ser pagas com pontos de gratidão. Quem faz coisas boas para os outros ganha pontos, quem não faz não ganha.

Assim era mais justo. E assim acabavam também as guerras, concluiu, num tom menor, como para si mesmo.

18 fevereiro 2023