Davide Scarso
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— CRÓNICA

Desconfiança nas ciências, desigualdade e participação

A instalação de indivíduos que basearam a sua carreira política na promoção de crenças negacionistas e anticientíficas no governo do país mais desenvolvido do planeta é motivo de espanto e preocupação. As pessoas que o Presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, nomeou para posições estratégicas parecem reivindicar a ignorância, o desprezo pela evidência científica e a arbitrariedade como bandeiras de que se orgulhar. Continua a ser importante promover o conhecimento do que as ciências fazem – não só nos seus resultados, mas também nas suas formas de funcionamento (muitas vezes distintas entre diferentes áreas): como se lida com a incerteza, como se chega a um consenso, como as suas investigações são financiadas, etc. No entanto, é também importante não reduzir o apoio que figuras sinistras como Robert F. Kennedy Jr. e outros obscurantistas receberam a um simples reflexo de um analfabetismo científico subjacente. Não há dúvida de que a extensa e bem oleada máquina de comunicação usa a desinformação da maneira mais cínica possível com objectivos puramente demagógicos. Estudos realizados na última década mostram, porém, que a falta de confiança na ciência e suas instituições está correlacionada de forma muito mais consistente com a desigualdade social do que com o nível de instrução da população. Uma análise da relação entre o índice de Gini, que mede a desigualdade na distribuição de rendimentos (quanto mais baixo, melhor), e a confiança no conhecimento científico, baseada em dados do World Bank e do Wellcome Global Monitor, revela um padrão muito regular: países mais igualitários tendem a revelar maior confiança nas ciências e nos seus representantes. A correlação com o nível de instrução médio, calculado em termos de anos de escolaridade, é, pelo contrário, bastante menos robusta. Dito de outra forma, a relação entre a desigualdade de rendimentos e a confiança nas instituições científicas tem maior poder explicativo do que a relação com o nível médio de educação (entre 30 a 50% mais forte, dependendo do conjunto de países analisados). E há outra variável que também possui maior poder “preditivo” do que a literacia científica: a medida em que os cidadãos sentem que podem (ou não) intervir nas decisões políticas. Mesmo reconhecendo tratar-se de uma dimensão não fácil de medir, dados do World Values Survey e do Edelman Trust Barometer sugerem de forma consistente que nos países onde os cidadãos mais sentem que podem participar nas decisões políticas, há maiores níveis de acolhimento dos discursos da ciência, e vice-versa. O que os promotores da desinformação e das teorias da conspiração estão a manipular, por consequência, não será tanto a iliteracia científica das pessoas, mas sim a desigualdade e a exclusão (de forma paradoxal, diga-se de passagem, sendo muitas vezes eles próprios expressão das forças políticas e económicas mais directamente responsáveis pelo aumento da desigualdade e pelo desmantelamento da participação democrática...). A desconfiança na ciência não pode ser dissociada das condições sociais e políticas que moldam uma sociedade e, embora a educação continue a ser fundamental, ela não resolve por si só o problema da desconfiança e tampouco pode servir de álibi. Restaurar a confiança na ciência exige também atacar as raízes da crescente desigualdade socioeconómica e garantir que as decisões políticas com um impacto mais directo na vida de todos nós sejam justas e participativas. Confiança na ciência e nos cientistas, participação política e justiça social são indissociáveis.
1 dezembro 2024 · Público