Davide Scarso

— CRÓNICA

A política como “representação”

Deputados do Chega na Assembleia da República
Luís Manuel Neves/Lusa

Ao que tudo indica, nos dias em que a região centro foi assolada por violentas tempestades, os canais oficiais do partido Chega terão difundido um vídeo nas redes sociais que mostra o seu líder a carregar garrafões de água na mala de um carro debaixo de chuva, tendo aumentado a intensidade da chuva por meios digitais. Sabemos muito bem que a propaganda é a alma do negócio, mas uma manipulação tão grosseira merece alguma atenção. Na última década, a comunicação política tem-nos oferecido discursos e atitudes que teriam sido impensáveis até há não muito tempo atrás, mas que hoje na verdade já não nos surpreendem assim tanto. Pensemos, a nível internacional, no grotesco fluxo semi-improvisado de Donald Trump, um misto de auto-celebração, insultos e mentiras, que o próprio já transformou numa figura de estilo, batizando-a de “the weave”. Ou, aqui mais perto, no comportamento vergonhoso do deputado do Chega Filipe Melo que, durante os trabalhos da Assembleia da República, dirigiu palavras e gestos de cariz racista e machista a duas colegas deputadas. Comportamento que, porém, não parece ter suscitado qualquer vergonha no seu autor, que ainda não apresentou um pedido de desculpas, apesar de ter sido instado nesse sentido no âmbito de um inquérito parlamentar. A falta de vergonha não parece aqui apenas um defeito pessoal, uma falta de estilo ou de educação, mas um dos elementos centrais de uma certa forma de ação política. Lembremos ainda um outro momento também muito significativo, quando o então candidato à Presidência da República André Ventura disse abertamente e sem hesitar que, caso viesse a ser eleito, não seria o presidente de todos os portugueses. Trata-se de uma declaração surpreendente, se considerarmos que tradicionalmente é quase que um lugar-comum da retórica dos candidatos à Presidência dizer que, uma vez eleitos, irão representar todos os cidadãos, inclusive os que não votaram neles. Como fez, de resto, em mais de uma ocasião, antes e depois da vitória, António José Seguro.

continuar a ler →3 março 2026

— CRÓNICA

Níobe em Gaza

Niobe com a filha mais nova (II séc, Museo degli Uffizi, Firenze)
Niobe com a filha mais nova (II séc, Museo degli Uffizi, Firenze)

A editora Penguin reeditou no final do ano passado as Metamorfoses de Ovídio, livro que não seria exagero descrever como prodigioso e que há anos estava fora de circulação. Entre as muitas histórias que lá encontramos, conta-se a de Níobe, rainha de Tebas e mãe de catorze filhos, sete rapazes e sete raparigas. Certo dia, ao ver o povo tebano todo atarefado com os preparativos para a celebração da deusa Latona, mãe dos gémeos Apolo e Diana e protetora da maternidade e das crianças, Níobe não consegue conter a sua irritação. Mas porque havemos de adorar uma deusa que só teve dois filhos, grita, quando eu tenho catorze? Eu sou bem mais afortunada que Latona, podem até tirar-me alguns deles e ainda assim terei mais do que ela. Latona ouve estas palavras e, revoltada com as soberbas injúrias da mortal, chama os filhos e pede que lhe tragam vingança. Apolo e Diana respondem de imediato. Primeiro, Apolo dirige-se aos sete filhos varões, que se encontravam a fazer exercícios, e mata-os um a um com as suas setas. Níobe chora a morte dos filhos mas, como se não conseguisse conter o desafio, insiste: ainda lhe restam as sete filhas, diz ela. Mas eis que as setas certeiras de Diana atingem as raparigas também, uma após a outra até restar apenas uma, que busca proteção nos braços da mãe. Níobe abraça-a, faz do seu corpo escudo, suplicando aos deuses que lhe poupem ao menos esta última filha. Em vão pois, com uma última seta, Diana completa o massacre. Rodeada agora pelos corpos dos catorze filhos, Níobe emudece de dor. O vento já não lhe move os cabelos, diz Ovídio, a face perde a cor, os olhos fixam-se sem piscar. Com o rosto ainda lavado em lágrimas, Níobe torna-se pedra. Um vendaval arrasta-a para a sua terra natal, onde dizem que ainda hoje é possível ver, no cume de uma montanha, uma pedra de onde as suas lágrimas brotam eternamente. “Porém ainda chora”, escreve Ovídio.

continuar a ler →10 outubro 2025

— NOTA

Quando os movimentos de defesa do direito à habitação são classificados como perigosos extremistas de esquerda e o José Hermano Saraiva até parece progressista, quer dizer que chegou a hora de desligar e voltar a ligar a nossa janela de Overton.
13 junho 2025

— EXCERTO

“Aquilo, para mim, que tinha 12 anos quando foi o 25 de Abril e já era muito politizado, era um festival para os sentidos. O mais incrível é que os tenha guardado, vá-se lá saber porquê. [...] Queria ter um de cada. Porque a realidade mudou de repente. Dantes, as paredes eram limpas e brancas e pintadinhas, tudo arrumadinho; de repente, não eram só as paredes que estavam desarrumadas, as famílias e o país também estavam desarrumados. A minha família quase se desfez, o meu avô era um lavrador alentejano a quem ocuparam as terras, o meu pai era do Partido Socialista, e o que estava em causa eram coisas importantes: ‘Deixamos cair as colónias?’ ‘A propriedade privada pode existir?’ ‘Tudo é de todos mas a minha enxada é minha?’ Estava tudo em discussão, havia debates por todo o lado.”
25 abril 2025

— CRÓNICA

O que os dados escondem

O Parlamento português aprovou recentemente uma proposta da Iniciativa Liberal, com voto a favor do PSD, CDS e Chega, bem como do deputado não-inscrito Miguel Arruda, que visa incluir nos relatórios anuais de segurança interna informações acerca da nacionalidade dos autores e vítimas de crimes. PS, BE, PCP, Livre e PAN votaram contra, alegando que estes dados são pouco úteis e podem fomentar a estigmatização e a xenofobia. Na opinião do senhor primeiro-ministro, embora credo religioso e etnia sejam informações algo controversas, dados sobre a nacionalidade permitiriam "aprofundar o conhecimento da factualidade subjacente à criminalidade". Mas o que é a "factualidade" que as estatísticas nos apresentam?
continuar a ler →28 março 2025 · Público

— NOTA

Nunca me vou fartar de dizer: se fomos capazes de criar uma instituição que trata crianças com doenças oncológicas de forma gratuita, com as técnicas mais avançadas e, como não bastasse, com um carinho e uma dedicação que parecem não ter limites, então talvez a humanidade não esteja completamente perdida.
15 fevereiro 2025

— NOTA

Um funcionário da limpeza urbana pediu aos tipos do restaurante indiano no fim da minha rua para usar a casa de banho. E sabem o que é que eles tiveram a lata de dizer? "Sim, claro, sem problema". Vi com os meus olhos, inacreditável. #soemportugal
11 fevereiro 2025

— EXCERPT

«The venture capitalist [Josh Wolfe] says this change suggests Alphabet is looking at Palantir, Microsoft, and Amazon, "who have been working closely with the government in the military, and they're now effectively saying, 'We have to work on weapons systems and surveillance. '"»
5 february 2025

— NOTA

Em Portugal há, em média, um novo diagnóstico de cancro pediátrico por dia. Se alguma vez ficarem com dúvidas acerca do SNS ou do porquê vale a pena pagar impostos, vão dar um passeio até ao parque infantil do IPO.
4 fevereiro 2025

— EXCERPT

« In the present context, this would mean forming an anti-technofeudal front that reaching beyond the left to various democratic forces and fractions of capital at odds with Big Tech. This hypothetical movement could adopt what we might call a ‘non-aligned digital policy’, aiming to create an economic space outside the grip of the monopolists in which alternative technologies could be developed. This, in turn, would imply a form of digital protectionism – denying access to US tech companies and dismantling their infrastructure wherever possible – as well as a new digital internationalism, with people sharing technological solutions on a cooperative basis. »
3 february 2025

— EXCERPT

"Yes, Zuck, I'm talking to you" « In her 1991 book “Backlash: The Undeclared War Against American Women,” Susan Faludi put forth the idea of a cycle of male revanchism against successive waves of feminism. “It returns every time women begin to make some headway toward equality,” she wrote, “a seemingly inevitable early frost to the culture’s brief flowerings of feminism. ” »
1 february 2025

— EXCERTO

« Em "O Direito de Não Ser Desinformado", de Vania Baldi, questiona-se o valor da cultura informativa e do interesse pelo conhecimento validado, analisam-se as dinâmicas intervenientes na comunicação social e na formação e atuação das esferas públicas – e faz-se um apelo à literacia mediática e democrática dos produtores, mediadores e consumidores de informação. Num mundo em que a mediação jornalística passou a dividir o palco informativo com o espaço de opinião e as redes sociais, um conjunto de investigadores e profissionais da comunicação exploram de forma inédita o caldo cultural a partir do qual emergem os fenómenos desinformativos que condicionam a vida política e social contemporânea. »
29 janeiro 2025

— NOTA

É um bocado óbvio mas vale a pena esclarecer, a PSP não está a dizer que não existe criminalidade em lado nenhum em Lisboa. Haverá roubos, homicídios, tráfico, zonas mais complicadas, fraudes, corrupção, criminalidade organizada etc., e isto tudo tem que ser rigorosamente investigado e os responsáveis processados e punidos. O que não há é um problema generalizado de segurança que justifique a ideia de um descalabro ou de uma "invasão", e que permita a certos partidos construirem toda sua ação em torno disso. Insistir em passar essa ideia de insegurança generalizada serve interesses políticos específicos. É uma instrumentalização do medo para ganhar apoio eleitoral à custa de reforçar preconceitos e alimentar o ódio, evitando ao mesmo tempo qualquer proposta séria e realmente útil para as pessoas.
28 janeiro 2025

— NOTA

Empreendedorismo!
23 janeiro 2025

— EXCERTO

"After years of pretending to be Democrats, Big Tech leaders are now pretending to be Republicans" ❤
15 janeiro 2025

— CRÓNICA

Quando as empresas públicas apoiam os monopólios digitais

« Quando a Câmara de Lisboa – ou qualquer outra entidade pública – adopta tecnologias que exigem a utilização exclusiva de dispositivos controlados pela Google (Android) ou pela Apple (iOS), o que acontece é, de facto, um subsídio indirecto a estes gigantes tecnológicos »
11 janeiro 2025 · Direitos Digitais

— CRÓNICA

Elon Musk, a parábola de um “génio”

Elon Musk
A celebração de Elon Musk como "génio visionário" tende a obscurecer as dinâmicas coletivas, as estruturas de poder e os recursos materiais que possibilitaram o seu sucesso. Sem negar o papel de uma certa inteligência, muita ambição e alguma ousadia, o seu verdadeiro talento reside mais na capacidade de compor e mobilizar recursos financeiros, tanto privados como públicos, tirando frequentemente partido de subsídios governamentais e incentivos fiscais para alavancar os projetos das suas empresas high-tech. E nas redes sociais muito se discutiu o facto de parte do capital da família de Elon Musk estar relacionado com atividades de exploração mineira na África do Sul do apartheid, bem como a ideia de que, bem vistas as coisas, Musk não é diretamente responsável por nenhuma "invenção" propriamente dita.
continuar a ler →5 janeiro 2025 · Público

— NOTA

O "icebreaker" perfeito para conversas em família na quadra festiva: cerca de 54,5% do saldo positivo da Segurança Social até agosto de 2024 é devido às contribuições dos imigrantes, que representam 7% da população. Os imigrantes contribuem aproximadamente 5,8 vezes mais do que recebem em prestações sociais. 🌟🎄🎁🎅
24 dezembro 2024

— NOTA

A minha filha fez 10 anos hoje e acordou de péssimo humor. Disse-lhe que ainda é um bocado cedo para ficar rabugenta no dia do aniversário, até porque ela provavelmente ainda tem mais uma boa década antes do colapso climático total.
20 dezembro 2024

— EXCERPT

« There's something like 13 million phones thrown out every day, which is a crazy, mind-boggling number. And if you think about that in aggregate, it's that we're all replacing these things every two or three years. Even though they are incredibly advanced and expensive, and in some ways almost the pinnacle of our industrial capability as a civilization, they are basically throwaway objects. And so, I look at that and I think, that's really broken, that's broken across every possible way that you can look at it. »
8 december 2024