— CRÓNICA
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A política como “representação”

Ao que tudo indica, nos dias em que a região centro foi assolada por violentas tempestades, os canais oficiais do partido Chega terão difundido um vídeo nas redes sociais que mostra o seu líder a carregar garrafões de água na mala de um carro debaixo de chuva, tendo aumentado a intensidade da chuva por meios digitais. Sabemos muito bem que a propaganda é a alma do negócio, mas uma manipulação tão grosseira merece alguma atenção. Na última década, a comunicação política tem-nos oferecido discursos e atitudes que teriam sido impensáveis até há não muito tempo atrás, mas que hoje na verdade já não nos surpreendem assim tanto. Pensemos, a nível internacional, no grotesco fluxo semi-improvisado de Donald Trump, um misto de auto-celebração, insultos e mentiras, que o próprio já transformou numa figura de estilo, batizando-a de “the weave”. Ou, aqui mais perto, no comportamento vergonhoso do deputado do Chega Filipe Melo que, durante os trabalhos da Assembleia da República, dirigiu palavras e gestos de cariz racista e machista a duas colegas deputadas. Comportamento que, porém, não parece ter suscitado qualquer vergonha no seu autor, que ainda não apresentou um pedido de desculpas, apesar de ter sido instado nesse sentido no âmbito de um inquérito parlamentar. A falta de vergonha não parece aqui apenas um defeito pessoal, uma falta de estilo ou de educação, mas um dos elementos centrais de uma certa forma de ação política. Lembremos ainda um outro momento também muito significativo, quando o então candidato à Presidência da República André Ventura disse abertamente e sem hesitar que, caso viesse a ser eleito, não seria o presidente de todos os portugueses. Trata-se de uma declaração surpreendente, se considerarmos que tradicionalmente é quase que um lugar-comum da retórica dos candidatos à Presidência dizer que, uma vez eleitos, irão representar todos os cidadãos, inclusive os que não votaram neles. Como fez, de resto, em mais de uma ocasião, antes e depois da vitória, António José Seguro.
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Níobe em Gaza
A editora Penguin reeditou no final do ano passado as Metamorfoses de Ovídio, livro que não seria exagero descrever como prodigioso e que há anos estava fora de circulação. Entre as muitas histórias que lá encontramos, conta-se a de Níobe, rainha de Tebas e mãe de catorze filhos, sete rapazes e sete raparigas. Certo dia, ao ver o povo tebano todo atarefado com os preparativos para a celebração da deusa Latona, mãe dos gémeos Apolo e Diana e protetora da maternidade e das crianças, Níobe não consegue conter a sua irritação. Mas porque havemos de adorar uma deusa que só teve dois filhos, grita, quando eu tenho catorze? Eu sou bem mais afortunada que Latona, podem até tirar-me alguns deles e ainda assim terei mais do que ela. Latona ouve estas palavras e, revoltada com as soberbas injúrias da mortal, chama os filhos e pede que lhe tragam vingança. Apolo e Diana respondem de imediato. Primeiro, Apolo dirige-se aos sete filhos varões, que se encontravam a fazer exercícios, e mata-os um a um com as suas setas. Níobe chora a morte dos filhos mas, como se não conseguisse conter o desafio, insiste: ainda lhe restam as sete filhas, diz ela. Mas eis que as setas certeiras de Diana atingem as raparigas também, uma após a outra até restar apenas uma, que busca proteção nos braços da mãe. Níobe abraça-a, faz do seu corpo escudo, suplicando aos deuses que lhe poupem ao menos esta última filha. Em vão pois, com uma última seta, Diana completa o massacre. Rodeada agora pelos corpos dos catorze filhos, Níobe emudece de dor. O vento já não lhe move os cabelos, diz Ovídio, a face perde a cor, os olhos fixam-se sem piscar. Com o rosto ainda lavado em lágrimas, Níobe torna-se pedra. Um vendaval arrasta-a para a sua terra natal, onde dizem que ainda hoje é possível ver, no cume de uma montanha, uma pedra de onde as suas lágrimas brotam eternamente. “Porém ainda chora”, escreve Ovídio.
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O que os dados escondem
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Quando as empresas públicas apoiam os monopólios digitais
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Elon Musk, a parábola de um “génio”

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